Há cerca de 25 anos existe na cidade de São João del-Rei o Centro Cultural Feminino, um espaço dedicado as mulheres são-joanenses que possuem interesse em tricô, artesanato, crochê e outras artes manuais. Atualmente está localizado na Rua Marechal Bittencourt, antiga Zona Boêmia de São João del-Rei, mas já funcionou em diferentes pontos da cidade. Após a Prefeitura Municipal cortar a verba destinada ao aluguel da antiga sede, o Centro Cultural tem dificuldade de manter a tradição artesanal, além disso, a concorrência com as indústrias têxteis e a falta de interesse da população são outros fatores que está levando o Centro à decadência.
O Centro Cultural surgiu na época da candidatura de Tancredo Neves a presidência. Segundo a atual presidenta Nely Lúcia Ribeiro Silva, mais conhecida por Guigui, mulheres de todo o Brasil e de São João del-Rei criaram um movimento feminista para apoiar a candidatura de Tancredo. Guigui disse que após o término das eleições Maria Amélia Dorneles, que liderava o movimento feminista em São João del-Rei se reuniu com as mulheres mais dedicadas e comentou que o movimento não podia dispersar na cidade, pois ela queria manter a força feminina. Maria Amélia decidiu então criar um movimento feminista que reunia atividades de artesanato, bordados, teatro e trabalhos manuais diversos, assim nasceu O Centro Cultural Feminino no dia 8 de março de 1986.
Guigui comenta que participa do Centro Cultural Feminino, desde quando foi fundado, mas que vê muitas diferenças dos anos 80, 90 para os dias atuais. “Antigamente as mulheres eram mais interessadas do que são hoje, nós tínhamos muitas jovens e senhoras que participavam. Atualmente, as jovens não se interessam por nada que a gente faz. Quando promovemos a Semana Bárbara Heliodora, especialistas de diversas áreas como arquitetas, engenheiras e médicas dão palestras gratuitas sobre assuntos de interesse feminino, mas hoje poucas mulheres participam, não passa de 20”, informa.
Maria Conceição de Jesus Cesário, participante também desde a fundação, comenta sobre as dificuldades de manter o Centro Cultural. “O povo não dá valor nenhum para o artesanato, a gente faz mesmo porque é uma coisa que gostamos de fazer, se dependermos do artesanato para viver passamos fome. Hoje, as pessoas preferem comprar uma confecção industrial da vitrine, e não dão valor no que fazemos, acham caro, não reconhecem nosso trabalho. Também, principalmente os jovens não têm interesse em aprender, eu montei uma escolinha gratuita para ensinar os artesanatos e ninguém quis nada, não tiveram interesse”.
No passado o Centro Cultural realizava e participava de diversas atividades como, por exemplo: Feira de Artesanato Norte-nordeste de Minas, exposição de artes e artesanatos, apresentação de Congado nas ruas de São João del-Rei exibição de filmes sobre a mulher, dentre outras. Mas, a prefeitura da cidade cortou as verbas destinadas ao Centro Cultural, com isso muitas mulheres ficaram desempregadas e a casa onde ele situava foi tomada. “O centro ficou fechado por uns 5 anos, ficamos desempregadas, dependíamos da prefeitura, pois ela sedia a casa, eles não reconheceram nosso trabalho de manter a cultura local, foi um desastre”, desabafa Maria Conceição.
Com o apoio do Governo Estadual, uma verba foi cedida ao Centro Cultural para aquisição de uma casa, a fim de retornar o funcionamento. Há dois anos foi construída a casa e reaberto, mas segundo a presidenta ainda falta apoio local e reconhecimento. “Não podemos deixar uma tradição morrer, às vezes não temos nem dinheiro para pagar a conta de luz, temos que tirar do nosso bolso para mantê-lo. Fazemos tudo por amor, aqui somos uma família, trocamos experiências e damos risadas”.
Maria Helena Monteiro Develasco conta que ficou sabendo do Centro Cultural por uma amiga no Rio de Janeiro e se interessou pelo trabalho desenvolvido, já que tem paixão pelo artesanato. Ela mudou para São João del-Rei e então resolveu participar. “Aprendi muito aqui, o clima é ótimo, fazemos tricô, crochê, bordados e trocamos histórias, fico indignada de ver a administração local não valorizar nosso trabalho, eles não dão a mínima, não nos ajudam em nada”.
Já Rosa Luzia Pereira da Silveira, participa desde os anos 90 e comentou que o interesse pelo artesanato e o clima acolhedor do Centro Cultural a motivou fazer parte. “Eu amo artesanato e aqui é um lugar onde a gente chega, trabalha, conta muito caso. Tem dia que estamos muito apreensivas e aqui relaxamos, pois é um lugar muito gostoso, somos uma família”.
Hoje o Centro Cultural conta com cerca de 40 membros e qualquer pessoa que tenha amor pelo crochê, tricô, bordado e goste de trocar experiências pode participar. Para isso, basta ir até a sede e procurar a presidenta. “Mesmo com todas as dificuldades, não podemos deixar que o Centro Cultural acabe, pois fazemos parte da história e contribuímos para cultura de São João del-Rei. Precisamos de apoio tanto da população quanto da administração local. Também estamos de portas abertas para todos os artesãos que queiram utilizar nosso espaço para expor seus trabalhos”, conclui a atual presidenta, Nely Lúcia Ribeiro.
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